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MS Journal #45: Outubro 2026

 
 

Tudo o que cabe num disco

 

Sulcos de um disco de vinil vistos ao microscópio eletrônico.

 

Uma canção parece nascer inteira da cabeça de quem a compôs. Ao longo do último século, porém, ela também precisou se adaptar aos formatos que a levaram até nós. Do espaço disponível num disco às regras de uma plataforma de streaming, esses limites acabaram influenciando a duração, a ordem e até aquilo que conseguimos ouvir.

 

Antes de ser um disco, um álbum era literalmente um álbum. No começo do século 20, um disco de 78 rotações guardava pouco mais de três minutos por lado, e quem quisesse vender uma coleção de canções precisava reunir vários deles em capas de papel, encadernadas como um álbum de fotografias. O nome continuou mesmo depois que o objeto desapareceu.

 

Os três minutos também moldaram as próprias canções: composições e arranjos eram adaptados para caber num lado. Muita gente vê aí a origem da duração da música pop, que ainda gira em torno de três minutos, embora as rádios, interessadas em encaixar mais anúncios, também tenham ajudado a fixar o padrão.

 

Perto do centro do disco

 

O LP, lançado pela Columbia em 1948, trouxe pouco mais de vinte minutos por lado e uma limitação menos óbvia. Como o disco gira sempre na mesma velocidade, cada segundo de música ocupa um trecho de sulco bem mais curto perto do centro do que na borda. Ali, a música fica espremida, a agulha tem dificuldade de acompanhar os detalhes e o som perde definição. Por isso, os engenheiros costumavam abrir cada lado com as faixas mais intensas e deixar as mais calmas para o fim. A ordem de um álbum, que lemos como escolha artística, também era um jeito de contornar a física.

 

Houve quem brincasse com essas regras. No fim de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, de 1967, os Beatles gravaram falas sem sentido no círculo em que termina a espiral do disco, aquele em que a agulha gira até alguém levantá-la, e o trecho se repete indefinidamente. Em 1973, o Monty Python foi além. Cada lado de um disco tem uma única espiral, da borda ao centro, e o grupo gravou duas, entrelaçadas. Dependendo de onde a agulha caísse, ouvia-se um programa ou outro, como se o disco tivesse três lados.

 

Nos anos 1970, o 8-track, um cartucho de fita maior que a fita cassete e muito comum nos carros americanos, impôs outras regras. Ele tocava em loop e dividia o álbum em quatro partes, com um estalo na passagem de uma para outra, muitas vezes no meio de uma música.

 

O Pink Floyd tirou proveito disso em Animals, de 1977. No vinil, o disco abre e fecha com as duas metades de "Pigs on the Wing", para terminar onde começou. No cartucho, que recomeçava sozinho, essa volta acontecia de verdade, e as duas metades acabariam tocando uma atrás da outra, separadas apenas pelo estalo. 

8 – track player: Bat Out of Hell, de Meat Loaf, num toca-fitas 8-track de carro. O álbum foi lançado em 1977, mesmo ano de Animals, do Pink Floyd.

A banda então as juntou numa única canção, costurada por um solo de guitarra de Snowy White que não existia no LP. Fora do cartucho, o solo só voltou a aparecer numa coletânea do próprio Snowy White, em 1995, até que essa versão entrou numa coletânea do Pink Floyd lançada em junho de 2026.

 

74 minutos

 

Phillips CD 100: O Philips CD 100, um dos primeiros aparelhos de CD, lançado em 1982.

No fim dos anos 1970, Sony e Philips desenvolviam juntas o compact disc. A Philips propôs um disco de 11,5 centímetros, com cerca de uma hora de música, mas o CD lançado em 1982 tinha 12 centímetros e 74 minutos.

 

A explicação mais famosa envolve Beethoven. Norio Ohga, executivo da Sony com formação em canto lírico, teria exigido espaço para a Nona Sinfonia inteira, na lenta gravação regida por Wilhelm Furtwängler em Bayreuth, em 1951, que durava cerca de 74 minutos. Ohga de fato insistia num disco em que a Nona coubesse inteira. Mas Kees Immink, engenheiro da Philips envolvido no projeto, chamou essa versão de "uma boa história de relações públicas": a Philips já tinha uma fábrica pronta para discos de 11,5 centímetros, e os 12 centímetros punham as duas empresas em igualdade.

 

O espaço de sobra também virou esconderijo. Em Nevermind, de 1991, o Nirvana deixou dez minutos de silêncio depois da última faixa listada e só então colocou "Endless, Nameless", que não aparecia na capa. Quem desligava o aparelho antes nunca a ouvia. A faixa ficou de fora da primeira tiragem por engano, e Kurt Cobain exigiu do engenheiro de masterização que ela voltasse nas seguintes.

 

O que o MP3 não precisava guardar

 

No fim dos anos 1980, o desafio era outro. Os arquivos de música digital eram grandes demais para os computadores da época, e um grupo de engenheiros na Alemanha procurava um jeito de encolhê-los sem que ninguém notasse a diferença. A solução veio do ouvido: um som baixo, tocado junto com outro muito mais forte, fica encoberto, como um sussurro no meio de um aplauso. O MP3 aprendeu a identificar esses sons escondidos e a descartá-los.

 

Karlheinz Brandenburg, um dos engenheiros, leu numa revista de áudio que "Tom's Diner", de Suzanne Vega, era usada para testar caixas de som, e decidiu testá-la também no MP3. A versão original da música, de 1987, anterior ao remix lançado em 1990, tem apenas a voz dela, sem nenhum instrumento. Num arranjo com banda, os instrumentos disfarçavam as falhas da compressão. Ali, nada as escondia: as demais gravações testadas soavam bem, e a voz de Vega saía, nas palavras dele, "horrível". Brandenburg passou a testar cada ajuste do MP3 com essa gravação e a ouviu centenas de vezes, até a versão comprimida soar como a original. Vega ganhou o apelido de "mãe do MP3".

 

Tom´s Restaurant: O Tom's Restaurant, na Broadway, em Nova York, que inspirou "Tom's Diner".

 

Anos depois, o compositor Ryan Maguire fez o caminho inverso e montou uma faixa, "moDernisT", só com o que o MP3 descarta de "Tom's Diner". Sozinhos, sem a música que os escondia, esses sons aparecem: fragmentos de voz e ecos que lembram a canção sem chegar a formá-la.

 

Trinta segundos

 

Em 2001, o iPod prometia mil músicas no bolso, e o espaço parecia deixar de ser um problema. O streaming trouxe outra regra: no Spotify, uma reprodução só é contabilizada como stream depois de 30 segundos, e essa contagem entra no cálculo dos royalties.

 

Em 2014, a banda americana Vulfpeck lançou ali o álbum Sleepify, com dez faixas de silêncio de pouco mais de 30 segundos cada, e pediu aos fãs que o deixassem tocando enquanto dormiam. Foram cerca de 5,5 milhões de reproduções em sete semanas, até o Spotify retirar o disco, e quase 20 mil dólares, que a banda usou para fazer uma turnê com entrada gratuita.

 

Em entrevista à revista Rolling Stone, Jack Stratton, fundador da banda, resumiu a relação entre a música e a tecnologia que a carrega: "Com a tecnologia disponível, é ela que dita a embalagem da música, seja um compacto de três minutos, um LP de quarenta minutos, um single de oito minutos em disco de doze polegadas ou um CD de setenta minutos. E agora é o Spotify."

O primeiro iPod, lançado pela Apple em 2001.

 

Mais sobre o assunto

 

The Playlist (Som na Faixa) — Netflix (2022)
Minissérie sueca sobre a criação do Spotify e a disputa com as gravadoras. Cada episódio conta a história pelo ponto de vista de uma pessoa diferente, do fundador à artista.

How Music Got Free (Como a música ficou grátis) — Stephen Witt (Intrínseca)
Livro-reportagem sobre a invenção do MP3 e a pirataria que mudou a indústria da música.

O primeiro capítulo, disponibilizado gratuitamente pela editora, conta a história de Karlheinz Brandenburg e da criação do formato.

8-Tracks — Pink Floyd (2026)
Coletânea em CD e vinil que inclui a versão completa de "Pigs on the Wing", com o solo de Snowy White, antes disponível só no 8-track de Animals e numa coletânea do guitarrista.

 
 

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Enviado por Marina Schaffa
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