MS Journal #44: Outubro 2026 |
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Envelhecemos aos poucos, a cada minuto. A idade, porém, é contada em anos inteiros, que mudam num dia marcado no calendário. O aniversário é o dia em que essas duas contagens se encontram, e nem sempre combinam. |
Relógio da antiga loja de departamento Mappin, no centro de São Paulo - Eduardo Knapp/Folhapress |
Em novembro de 2018, o holandês Emile Ratelband, palestrante motivacional de 69 anos, fez um pedido bastante incomum ao tribunal de Arnhem: queria mudar sua data de nascimento de 1949 para 1969.
Dizia se sentir com 49 anos e argumentava que a idade registrada em seus documentos o prejudicava no trabalho e na vida amorosa. Se era possível mudar de nome e de gênero, perguntava, por que não de idade?
O caso correu o mundo como piada, mas o tribunal levou a questão a sério. Ao negar o pedido, explicou que a idade está ligada a direitos e deveres e que alterar a data de nascimento faria desaparecer vinte anos dos registros civis. Ainda assim, acrescentaram os juízes, Ratelband era livre para se sentir vinte anos mais jovem e agir de acordo.
A decisão acabou separando duas idades que normalmente são representadas por um mesmo número: a oficial e aquela que a pessoa sente ter.
O pedido pareceu excêntrico, mas a sensação que o motivou é bastante comum. Em 2006, os psicólogos David Rubin e Dorthe Berntsen perguntaram a 1.470 dinamarqueses, entre 20 e 97 anos, que idade eles sentiam ter. Até os 25 anos, em média, as pessoas se sentiam um pouco mais velhas do que eram. Depois disso, passavam a se sentir mais jovens, e a partir dos 40 a diferença se estabilizava em cerca de 20%.
Outros estudos sobre idade subjetiva encontraram o mesmo padrão geral. Visto assim, Ratelband apenas levou ao tribunal uma percepção que muita gente tem e expressa com naturalidade, como quando amigas de 50 anos continuam se referindo umas às outras como “as meninas”. A diferença é que, uma vez por ano, o calendário confronta essa percepção com um número.
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Se envelhecemos a cada minuto, por que não sentimos isso no dia a dia? Os gregos antigos ajudam a pensar nisso com um enigma sobre areia. |
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areia: Playa Las Higuericas, Pilar de la Horadada, Espanha |
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Um grão sozinho não forma um monte. Se acrescentarmos outro, ainda não temos um monte. Se continuarmos adicionando os grãos um a um, nenhum deles parece ser responsável pela transformação. Mesmo assim, em algum momento, os vários grãos juntos formam um monte diante de nós. O paradoxo ficou conhecido como sorites, de soros, “monte”, e é atribuído a Eubulides de Mileto, no século IV a.C.
O envelhecimento funciona do mesmo jeito. Um minuto a mais não deixa nenhuma marca perceptível, e um dia ou uma semana também não. Cada acréscimo é pequeno demais para ser notado, e por isso ninguém sente que envelheceu numa terça-feira qualquer. Acabamos percebendo a soma de uma vez, quando alguma coisa a torna visível: uma fotografia antiga, o comentário de alguém ou a data em que o número muda.
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Em 1889, o filósofo francês Henri Bergson chamou atenção para outra parte do problema. O relógio precisa que todos os minutos sejam iguais para que possamos usá-los como medida comum, marcar encontros e organizar a vida. O tempo vivido, que Bergson chamou de durée, não tem essa regularidade. Uma hora em uma sala de espera e uma hora em uma boa conversa são idênticas no relógio, mas a primeira parece não terminar e a segunda passa quase sem ser percebida. Internamente, ninguém acompanha a própria vida em minutos, e por isso a contagem do calendário pode se afastar bastante daquilo que sentimos.
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O aniversário é o dia em que essa soma invisível ganha um número. Entre a véspera e a manhã seguinte, o corpo envelhece no mesmo ritmo de qualquer outra noite, e aos 43 anos e 364 dias ninguém é substancialmente mais jovem do que no dia seguinte. Mesmo assim, a nova idade costuma trazer um peso que não existia na véspera.
Em 2014, os pesquisadores Hengchen Dai, Katherine Milkman e Jason Riis, da Wharton, mostraram que certas datas mudam a forma como as pessoas se comportam. Logo depois do começo de uma semana, de um mês, de um ano ou de um aniversário, aumentavam os comportamentos ligados a novos objetivos. A explicação proposta é que essas datas funcionam como divisões de capítulo. Separam um período do outro, empurram o que ficou para trás para um “antes” e levam as pessoas a olharem para a própria vida de forma mais ampla. É esse olhar que costuma acompanhar os aniversários e que faz os 40 anos soarem tão diferentes dos 39.
A sociedade também precisa de capítulos, e com muito mais rigidez. Ninguém amadurece à meia-noite do aniversário de 18 anos, mas a lei precisa definir a partir de quando alguém pode votar, assinar determinados contratos ou responder por certas decisões. Uma mudança gradual acaba recebendo uma data exata. Era esse o problema que o tribunal holandês tinha diante de Ratelband: se cada pessoa pudesse deslocar essa linha de acordo com a idade que sente ter, o número deixaria de cumprir a função que a lei atribuiu a ele.
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Linhas assim, porém, podem produzir consequências que ninguém escolheu. No futebol de base, os jogadores são agrupados por ano de nascimento. Dentro de uma mesma categoria, um menino nascido em janeiro pode ser quase doze meses mais velho do que outro nascido em dezembro. Durante a infância e a adolescência, essa diferença pode representar uma vantagem relevante de maturação física. Por isso, os mais velhos de cada categoria tendem a aparecer em maior proporção entre os selecionados e, a partir daí, podem receber mais treino e mais oportunidades de desenvolvimento.
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Foto: Crianças jogando bola |
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Um estudo publicado em 2012 analisou mais de 200 mil jogadores profissionais registrados na CBF, nascidos entre 1921 e 1996, e encontrou o chamado efeito da idade relativa no futebol brasileiro: havia mais jogadores nascidos nos primeiros meses do ano do que seria esperado. O estudo mostrou ainda que esse desequilíbrio se tornou mais pronunciado ao longo das décadas. O mesmo efeito já foi encontrado em muitos outros esportes, do hóquei no Canadá ao basquete e ao handebol.
Entre 31 de dezembro e 1º de janeiro, ninguém fica mais alto, mais forte ou mais maduro.
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Quando os anos parecem acelerar
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Há outra discordância entre o calendário e a experiência que dispensa qualquer tribunal ou regra esportiva: os anos nem sempre parecem ter a mesma duração.
Em 1877, o filósofo francês Paul Janet propôs uma explicação quase matemática para a sensação de que os anos aceleram conforme envelhecemos: para uma criança de dez anos, um ano é um décimo de toda a vida que ela conhece; para alguém de cinquenta, apenas um cinquenta avos.
A hipótese era sedutora. William James não ficou convencido.
Em 1890, nos Princípios de Psicologia, ele reconheceu que a fórmula de Janet descrevia bem a sensação, mas argumentou que isso não bastava para explicá-la. Para James, a memória tinha um papel importante, e havia uma diferença entre o tempo enquanto o vivemos e o tempo que percebemos quando olhamos para trás.
Uma viagem cheia de experiências novas pode passar voando enquanto acontece e, meses depois, parecer ter durado muito, porque deixou uma quantidade enorme de lembranças. Uma semana monótona pode custar a passar e depois quase desaparecer da memória. Com a idade, parte do que era novidade se torna familiar, os dias deixam menos referências distintas, e o mesmo intervalo passa a ocupar menos espaço na lembrança.
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O pedido de Emile Ratelband não prosperou. Em 11 de março de 2019, pouco mais de três meses depois da decisão de Arnhem, ele completou 70 anos, como previa a data que tentou alterar. Pelas contas dele, no entanto, estaria fazendo 50.
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Boyhood: Da Infância à Juventude — Richard Linklater (2014)
Filmado ao longo de doze anos com o mesmo elenco, acompanha um menino dos 6 aos 18 anos. O filme não usa legendas para indicar a passagem do tempo, e o espectador percebe o crescimento aos poucos, cena a cena, como acontece fora da tela.
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Questão de Tempo — Richard Curtis (2013)
Aos 21 anos, Tim descobre que os homens da família conseguem voltar no tempo dentro da própria vida. O que começa como comédia romântica vira uma reflexão delicada sobre como vivemos os dias comuns.
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Boneca Russa — Netflix (2019)
Nadia comemora 36 anos numa festa em Nova York e, a partir dali, volta repetidamente à mesma noite. Uma série leve e inteligente sobre um aniversário que se recusa a terminar.
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