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MS Journal #43: Setembro 2026

 
 

Frank Gehry antes de Bilbao

 
 

casa do Frank Gehry - projeto dele - em Santa Mônica

 

Em 1991, a Fundação Guggenheim procurava um lugar para abrir um museu na Europa. Bilbao parecia uma escolha improvável. A cidade basca vinha de uma longa crise industrial, com estaleiros fechando e grandes áreas degradadas às margens do rio Nervión. O governo local, porém, tinha um ambicioso projeto de transformação urbana e viu no museu uma oportunidade.

 

Três escritórios foram convidados a apresentar propostas. Frank Gehry venceu. Ele estava longe de ser desconhecido, já havia recebido o Pritzker em 1989, mas sua fama ainda estava muito concentrada no mundo da arquitetura.

 

Quando o Guggenheim abriu, em 1997, Gehry tinha 68 anos. O edifício levou visitantes do mundo inteiro a uma antiga zona industrial de Bilbao e se tornou a imagem de uma transformação urbana muito maior que já estava em curso. O impacto foi tamanho que ganhou um nome: “efeito Bilbao”, expressão que passou a ser usada para falar de cidades que apostam em arquitetura e cultura para se reposicionar.

 

Nervión river - Puente de la Salve Bilbao

 

Gehry morreu em dezembro de 2025. Agora, uma retrospectiva em Serralves, no Porto, percorre mais de seis décadas de sua obra. Uma boa oportunidade para olhar além dos edifícios que todo mundo conhece.

 

No início dos anos 1970, Gehry começou a experimentar com um material que tinha à mão no escritório: papelão ondulado, usado também para fazer maquetes. Ao colar várias folhas em camadas, alternando a direção das ondulações, percebeu que o papelão ganhava uma resistência surpreendente. Era possível cortá-lo em blocos e fazer móveis de verdade.

 

Nasceu assim a Easy Edges. A peça mais conhecida, a Wiggle Side Chair, é feita praticamente só de papelão sobreposto. Lançada em 1972, a linha vendeu bem e colocou Gehry no radar do design.

 

Mas aquele sucesso chegou num momento delicado: ele ainda buscava se firmar na arquitetura e temia ser reconhecido primeiro pelos móveis de papelão. Pouco depois de a coleção decolar, interrompeu a produção. Anos mais tarde voltaria ao material na série Experimental Edges, mas só depois de ter freado justamente aquilo que começava a fazer sucesso. 

Wiggle Side Chair, da série Easy Edges, 1972

 

Por que tantos peixes?

 

Nos anos 1980, em plena era pós-moderna, muitos arquitetos voltavam a buscar referências históricas, recuperando colunas, frontões e formas clássicas. Gehry resolveu ironizar esse retorno ao passado indo muito mais longe: se era para voltar na história, por que parar nos gregos? Os peixes existiam milhões de anos antes.

 

Começou a desenhá-los. O que nasceu como provocação ficou mais interessante quando percebeu que o corpo do peixe permitia explorar movimento em uma forma estática. Vieram desenhos, luminárias e esculturas. Em uma delas, um enorme peixe de madeira feito para uma exposição na Itália, Gehry se incomodou com o resultado: a cabeça, os olhos e as barbatanas tornavam o peixe literal demais, mas o movimento do corpo o interessava. Aos poucos, foi eliminando os elementos reconhecíveis e preservando as curvas.

Peix, Vila Olímpica de Barcelona, 1992.

Em 1992, essa forma ganhou mais de cinquenta metros em uma escultura para a Vila Olímpica de Barcelona. E apareceu um problema: como explicar com precisão a engenheiros e fabricantes onde deveria estar cada ponto daquela enorme superfície curva?

 

A equipe encontrou a solução fora da arquitetura, no CATIA, software desenvolvido para a indústria aeroespacial. No início dos anos 1990, quando os desenhos bidimensionais ainda dominavam os escritórios de arquitetura, o programa permitia transformar aquelas curvas em informações precisas para engenheiros e fabricantes. Poucos anos depois, Gehry usaria o mesmo recurso para enfrentar um desafio muito mais complexo: construir as formas do Guggenheim Bilbao.

 

Como se constrói Bilbao

 

As maquetes de Gehry para o Guggenheim eram cheias de curvas difíceis de traduzir pelos métodos convencionais. Com o CATIA, cada elemento podia ser calculado e posicionado com precisão, tornando construível uma geometria que, no papel, seria extremamente difícil de executar.

 

O revestimento trouxe outro desafio. Gehry queria um metal, mas o aço inoxidável não lhe agradava. Testou diferentes opções até chegar ao titânio, um material ainda pouco comum em fachadas daquela escala. O Guggenheim acabou coberto por quase 33 mil placas, e o número impressiona menos que a espessura: cada uma tem apenas 0,38 milímetro, algo próximo à espessura de algumas folhas de papel empilhadas.

 

As placas não são a parede do museu, mas uma pele finíssima aplicada sobre as camadas que realmente impermeabilizam o edifício. Cada uma mede aproximadamente 60 por 80 centímetros e é tão leve que um único instalador consegue manuseá-la. Isso foi particularmente útil nas áreas côncavas da fachada, onde guindastes não conseguiam chegar e parte do revestimento precisou ser instalada por trabalhadores suspensos na estrutura.

 

A pouca espessura ainda produz um efeito que dificilmente se percebe nas fotografias. O titânio não fica completamente rígido e plano. As placas têm uma aparência ligeiramente acolchoada e podem se mover discretamente com o vento. É uma das razões pelas quais a enorme superfície metálica de Bilbao não se comporta visualmente como uma fachada convencional de metal.

Quase 33 mil placas de titânio revestem o Guggenheim.

Cada uma tem apenas 0,38 mm de espessura

 

Bilbao ainda guarda uma pequena ironia na história de Gehry. Em 1988, antes mesmo de começar a projetar o Guggenheim, ele venceu o concurso para o Walt Disney Concert Hall, em Los Angeles. Era um projeto de enorme visibilidade, destinado a ser a nova casa da Filarmônica da cidade, e poderia perfeitamente ter sido o edifício que apresentaria ao grande público a arquitetura monumental pela qual Gehry ficaria conhecido.

 

Só que o Disney travou. O orçamento cresceu, o financiamento se complicou e, embora o estacionamento subterrâneo tenha sido construído, o edifício ficou anos sem sair do papel.

Enquanto Los Angeles tentava viabilizá-lo, surgiu Bilbao. Gehry começou o Guggenheim depois, viu o museu ser construído primeiro e, em 1997, assistiu a um projeto espanhol transformar seu nome em fenômeno mundial.

 

Walt Disney Concert Hall, Los Angeles. Projeto iniciado em 1988; inauguração em 2003

 

Quando o Disney Concert Hall finalmente abriu, em 2003, aconteceu uma pequena ironia: muita gente viu nele a continuação da arquitetura que conhecia de Bilbao. Mas o projeto de Los Angeles tinha começado quatro anos antes do Guggenheim.

 

O edifício que poderia ter apresentado Gehry ao mundo acabou sendo inaugurado quando o mundo já conhecia Gehry.

 

Mais sobre o assunto

 

Frank Gehry’s Los Angeles, podcast Art + Ideas, Getty

Uma série de quatro conversas com o próprio Gehry, gravadas no estúdio dele. Ele conta a chegada a Los Angeles, o começo da carreira, a casa de Santa Monica, os peixes, o Hollywood Bowl, Disney Hall e outros episódios. É justamente de uma dessas conversas que vem a história da vizinha da casa de Santa Monica que trouxemos nesse Journal.

Para ouvir

O século de Gehry

E, se por acaso você passar pelo Porto até 30 de dezembro: a Fundação de Serralves apresenta O século de Gehry, retrospectiva com 19 projetos que percorrem mais de seis décadas de sua obra.

Bilheteria - O século de Gehry

 
 

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Enviado por Marina Schaffa
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